Reflexões mudas

Eis o que disse à Maria João,
– que é minha tia –
assim de repente,
bebendo muita aguardente
por causa do frio que fazia:
Estou bem assim, não sinto solidão.
Quem está só é a minha poesia.
A velha senhora, então,
olhou pra mim, pousou o pente
e disse: – Não há quem te aguente!
Pára de dizer asneiras!
Parei, pra não haver chatices.
Esta velha, quando se arrelia,
não é pra brincadeiras.
Retirei-me e fui tomar banho.
Antes, porém, sentei-me na pia.
Com humildade e sem peneiras
escrevi isto, enquanto a Musa ria.
É assim, já não estranho.
Coitada da minha poesia!

É estranho que uma Alta Dama
de longe fale ao meu ouvido
(num tom leve e bem medido)
quando o meu ser se esquece
da Luz que Dela emana.
Dela ouvi que a Vida, que me ama,
com Fios de Ouro me tece.
E concluiu murmurando:
Quem te ama sempre aparece!

Decerto largaríamos a nossa suja e rota capa,
se prestássemos atenção ao que a Lucidez cria.
Bastava sacar a navalha à estupidez que nos capa
e secar a chuva ácida que nos empapa,
para apreciarmos uma bem diferente Cantoria.
Sabes por que é que a Vida nos escapa?
Porque a Sombra, ao chegar, esvazia!