Quem nasceu do Ovo Primevo da Verdade?

Do volume 2 da ‘Antologia de Literatura Livre’ da editora Chiado Books


1) Apresentação

Quem nasceu para destronar o Deus do Engano,
derrotar quem aposta na Devastação
e resgatar o Sublime Código da Dignidade?

Quem nasceu para revelar o Deus Tirano,
trazer para o mundo o Anjo da Aceitação
e lavar a cara à Deusa da Fealdade?

Quem nasceu para apelar ao Deus Urano,
sugerir a Transformação
e açaimar a Génio da Ruindade?

Quem nasceu para findar o Desengano,
exilar o Senhor da inquietação
e lancetar as Memórias da Maldade?

Quem nasceu verdadeiro, puro e sano,
para derrocar os Muros da Separação
e convocar o Olimpo da Irmandade?

Não foi a Mãe do Mal nem o Pai do Dano.
Quem nasceu para fechar a Mina da Escravidão
foi a Grande Deusa da Liberdade!

2) Discurso

Eu sou o Deusa da Liberdade! Qualquer ser humano que por mim se deixe tocar, não tarda a sentir que a sua vida é absurda, ou, sendo aceitável, é insuficiente. Esta súbita inquietação leva-o a sentir que tem de partir à descoberta do não experimentado, a fim de assegurar as condições que o ponham a sorrir e a respirar fundo. O que acontece a este indivíduo pode acontecer a qualquer outro; basta que me dê permissão para que o horizonte da sua percepção seja empurrado para mais longe. A quem pode causar espanto o facto de eu desprezar a servidão? Quem se admirará por eu transmitir o desejo de eliminar dependências? Quem não acreditará que tudo faço para derrubar as grades dos cativeiros? Sou o Deusa da Liberdade, mas todos os meus pares me veem insatisfeita. Reparam nos escassos frutos da minha função, mas sabem que esse lamentável resultado não se deve a desleixo da minha parte. Afinal, eu não posso violar o livre arbítrio dos seres humanos! Faço o que as condições me permitem, enquanto espero que os Plantadores da Carência abdiquem da corrupção e que os Filhos da Carência façam o que têm a fazer.