Ditados da Musa Menina

SUGESTÃO
Antes de começares a ler os poemas desta página,
ouve a música até sentires que o ambiente desanuviou
e passou a ser propício à leitura de poesia.

 

Robert Schumann
Alemanha, Zwickau, 8 de junho de 1810 – Endenich, 29 de julho de 1856
 Cenas de Infância (Kinderszenen) Op. 15
Nº 13 – O poeta fala! (Der Dichter Spricht!)

 


 

A minha Musa Menina,
fazendo de mim seu ouvinte
e, por saber da minha sina,
ditou-me, baixinho, o seguinte:  

Amorzinhos

Usando brancos colarinhos
eis os cínicos de olhar infiel,
impingindo-vos charlatanices,
juros, impostos e bentinhos.

Respondem ao Juiz a sorrir
e, bufando os vapores do fel,
vendem-lhe petas e merdices
que, garantem, sabem a mel.

Vejam aqui, porém, o meu poeta
que, saído de outros Cadinhos,
lhes acena com a alma ereta,
olhos limpos e levezinhos.

 


A Musa Menina noutro estilo


 

A minha Musa Menina, discreta,
fazendo de mim seu ouvinte,
e sabendo desta sina de poeta,
ditou, pra todos nós, o seguinte:

Para despirem a vossa rota capa
atendam ao que a Sensatez cria.

Para calarem a vossa triste cantoria,
tirem a naifa à Mentira que vos capa,
saiam da chuva ácida que vos empapa
e procurem o que de Brilho vos cobriria.

Que cada um sinta o quanto lhe custaria.

Sabem por que a Vida vos escapa?
Porque a Sombra, ao chegar, esvazia!

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina, discreta,
fazendo de mim seu ouvinte
e sabendo como sou pateta,
chegou e propôs-me o seguinte:

Amigo, queres voar-me sem sela
agarrado somente à minha crina?
Atende então a esta voz singela,
que te afaga e inspira em surdina.
Escreve e sê consciente:
O teu olhar de ave de rapina
tem de aprender a perdoar,
aceitando que toda a gente
algum dia erra e desatina.
Respira-me e consente!
Se tratares de ser contente,
polido, doce e ligeiro,
a tua obra seguirá em frente
já não envolta em nevoeiro.

 

♦  ♦  ♦

 

A Musa Menina, bem discreta,
fazendo de mim seu ouvinte,
sempre amável e correta,
perguntou-me o seguinte:

Estranhas quando uma Alta Dama
de longe fala ao teu ouvido
(num tom leve e bem medido)
quando o teu ser se esquece
da compaixão que Dela emana?
Não sabias que a Vida, que te ama,
com mil Fios de Ouro te tece?

E concluiu, vendo-me comovido:

Quem te ama sempre aparece!

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina, discreta,
fazendo de mim seu ouvinte,
ao ver-me neste planeta
confidenciou-me o seguinte: 

Manhã, tarde ou noite, que importa?
Oceano, riacho ou rio, não interessa.
Na tua vida vale o que te transporta,
a Luz que no escuro te conforta
e o meu amor que sempre a ti regressa.

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina,
fazendo de mim seu ouvinte
e sabendo da minha sina,
ditou, pra todos nós, o seguinte: 

Porque o ódio só traz aridez,
a avidez é o penoso estado
marcado pela pequenez
de um sobreviver pesado,
desinteressado da limpidez
que deporia o Rei Sisudo.

 Ao saírem da Cela do Vazio
logo perderão a palidez
porque a Luz, servindo de escudo,
cobrirá, com seu Manto de Veludo,
aquilo que vos mantinha ao frio.
E isso é tudo.

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina,
fazendo de mim seu ouvinte
e, sabendo da minha sina,
ditou, para ti, o seguinte:  

Pouco te falaram sobre os dotes
daqueles que, penosamente,
vieram à Terra há muitos anos
para amparar toda a gente,
embora ao serviço de tiranos
viciados em matar e corromper.

Falo-te de sábios e sacerdotes,
que viveram honestamente,
como veros seres humanos,
arriscando o suco da serpente
que lhes podia ser dado a beber.

Muitos ainda dizem: Tais fulanos,
enganados, só disseram dichotes,
os quais foram, felizmente,
censurados com rigor e saber,
no Céu, por Deus e seus Arcanos,
na Terra, por Seus agentes no poder.

A estes vou chamar Os Vaticanos
se com isso, obviamente,
a tua fé não ofender,
não vás tu, nos próximos anos,
desistires de me ler.

A concluir, apenas te quero dizer
que, segundo Quem não mente,
num dia que o Porvir vai trazer
e num ano bastante quente,
serão corrigidos tais enganos.

Acredita que não sou vidente,
nem vir a sê-lo está nos meus planos.
São só rimas que surgem de repente,
embora na estranha lusa gente
possam causar muitos danos.

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina,
acordou-me às três e vinte
e, sabendo da minha sina,
ditou, para ti, o seguinte:

Minha amiga, atraída p’la lua:

Esperas que a Voz Celeste
te indique, a cada dia,
o que precisas de fazer
para que a tua vida flua.

Gostaria de te dizer
que isso não é para ti
(pois em fantasias creste)
é só para os de alma nua.

Assim, porque cresceste
vivendo pouco sadia,
o teu ego depressa amua
quando os seus desejos
não consegue satisfazer.

Quando nada pode fazer,
e se sente contrariado,
arrepia-se por estar castrado
mas ataca, pois não recua.

Longe do Rio da Grande Mente,
(que no Fim do Céu desagua)
estás parada no chão gretado
mostrando que estás ausente.

Porque tudo te parece parado,
esperas que um anjo cadente
se sente ofegante ao teu lado
e te sopre uma dica decente.

Amiga, que Deus te acrescente!

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina,
fazendo de mim seu ouvinte
e, sabendo da minha sina,
ditou, pra todos nós, o seguinte:

Porque a vida neste mundo
(como por outros já foi descrito)
tem vindo a ser assoada
na seda de muitas bandeiras,
é muito fácil o povo resvalar
para o Abismo das Asneiras.

E porque ração bichada vos é dada,
sacada de fétidas lixeiras,
o que devia ser bom e bonito
vive velho, com pele enrugada.

Um dia soará o Alto Grito
que, findando a vida encarquilhada,
acabará com a Era das Baboseiras.

Tendo perdido as estribeiras
ao verem a catedral vazia,
fugirão os Pastores de cruz alçada
com seus cães de trela comprada.

Seguem-se os Cordeiros e Cordeiras
(arautos da lacrimosa simpatia)
saudosos da banca derrubada
e da prosa que muitos convertia.

Com sorrisos bem vistosos
vocês verão a debandada
dos Decisores Merdosos
(manhosos de longa garantia)
e o fim, na incensada sacristia,
do nojento gosto p’la criançada.

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina,
fazendo de mim seu ouvinte
e, sabendo da minha sina,
inspirou-me o seguinte:

A ideia de mudar deve ser estimada,
no penoso contexto em que vivemos.
Vacilando, espalhamos o que nos degrada,
segurando a vontade, amolecemos,
dormitando, coroamos a vida desnatada.

O que temos nós para deitar fora?
O estado em que nos pusemos!

É preciso mandá-lo embora
mandando entrar a Sensatez
que, dando a mão à Lucidez,
há muito espera lá fora
aguardando que atinemos.

 

♦  ♦  ♦

A minha Musa Menina, discreta,
fazendo de mim seu ouvinte
e vendo como por vezes sou pateta
veio aconselhar-me o seguinte:

Abandona, meu poeta,
o teu rigor sombreado
pois a nação não está doente
nem a caminho da perdição.
Afaga este povo benevolente
mas que, por viver, amansado
se mostra sempre descontente
e sonhando com a libertação.
Regista o que deve ser cantado.
Acolhendo o atraso que te rodeia
e aceitando o geral desencanto,
deixarás de sentir ingratidão.
Este povo sofre da dormência,
que à mente sã dá negligência
e rouba a semente ao chão.
A mim não me causa espanto,
nem me prejudica a função.
Usando as cores do meu encanto
que te dou do fundo do coração,
verás legitimado o que eu te canto,
embora raros lhe notem perfeição.

 

♦  ♦  ♦

A minha Musa Menina,
fazendo de mim seu ouvinte
e, sabendo da minha sina,
ditou, pra todos nós, o seguinte:

No passado, muitos, bem melhores do que tu e eu,
criaram o que, hoje, poderá sanar a vossa vida.

A cura de que vos falo, à porta deles não bateu;
de si a tiraram quando viram a Mentira desabrida.

Reparem, antes que seja tarde, como Ela cresceu
e como o Futuro espera por vê-la removida.

Mas não peçam esse grande milagre ao Céu;
tirem partido do que a vossa alma já aprendeu.

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina,
fazendo de mim seu ouvinte
e, sabendo da minha sina,
ditou, para ti, o seguinte: 

Se sabes o que rejeitaste
dizendo ser descabido,
dispensável e escusado,
abdica dessa fé crispada
que ao frio parece ter ficado,
embora pouco tenha obtido.

Ao dizer-te que do ouro brotaste
e que de prata era o teu vestido,
impediu-te de teres praticado
os dons da tua alma prendada.

Se o teu olhar se mostra enfeitado,
o teu Ser não se sente enriquecido.

 

♦  ♦  ♦

 

A minha Musa Menina, discreta,
fazendo de mim seu ouvinte,
sabendo desta sina de poeta,
chegou e sugeriu-me o seguinte:

Educa o olhar fechando a retina
e evita, meu amigo, o julgamento.
Aplaca a ira que nunca termina
e que em vez de paz te dá tormento.
Quando a nobreza do Ser deitas fora,
não vês como a alma por ela implora.
É isto que eu em ti fomento.

 


 

Vídeo YouTube com as treze Cenas de Infância, Op.15, de Robert Schumann,
pelo famoso pianista russo Daniil Trifonov.