Denúncia do Amor Farpado

Arcangelo Corelli
Itália, 17 de fevereiro de 1653 / 8 de janeiro de 1713
Excerto do Concerto Grosso Op. 6, Nº 1

Este Concerto completo
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OBRA POÉTICA COMPLÉTICA
(que um dia, no futuro, será descobértica!)

Capítulo

DENÚNICA DO AMOR FARPADO
(em seis Trípticos)



TRÍPTICO  Nº 1

PACIFICAÇÃO
Os desamores que abalam a nossa conduta,
vêm de eras remotas que não podemos visitar.

Seremos nós capazes de, deixando de odiar,
impedir a experiência da Carência Absoluta?

Despedindo aquilo com que a Alma labuta
tomamos o elixir que nos porá a voar.

Além disso, poremos Vénus no seu lugar.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado! 


DESAMOR
Preferindo venerar o desamor,
pomos a nossa alma indisposta,
desiludida e descomposta.

Não querendo ser Quem somos,
não sabemos ao que nos expomos
e não aceitamos os extremos.

Como sabemos quem somos?
Talvez a máscara que cedo pomos
a enfeitar os nossos olhos.

Como sabemos para onde vamos?
Como antevemos como estaremos?
Enquanto à Decência nos opomos
viramos a cara ao mal que vemos.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!  


MEDO
A nossa voz sagrada mantém-se ausente
como se, subitamente, tivesse entristecido.
Porque não colhemos o que podia ser colhido
o Ser existe enfraquecido e vive descontente.

O coração pretende ser reconhecido
mas o Amor não consegue aquecer
o nosso olhar seco e indiferente.

Tendo o medo como estado do ser,
a Lucidez está sempre ausente.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

TRÍPTICO  Nº 2

MEDALHÃO
Trazemos, colada ao peito,

a flor rubra da jactância
num medalhão da cor da Desventura.

Envoltos na vanglória mas sem elegância
– e mantendo o Amor à distância –
acendemos velas de sebo a preceito
no Grande Altar da Coisa Impura.

Afinados com tanta dissonância,
dificilmente teremos cura.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

ESTÍMULO
Reparemos em como a vida é embargada
quando o olhar inseguro se torna arrogante.

Esta atitude, que do Amor foi separada,
– e que de tudo ficou distante
menos da morte a que está colada –
dissipa o que podia empurrar-nos para diante.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

CILADA
A Terra, hoje, como outrora,
está a ser pelo ódio atacada.

A Verdade foi posta fora,
a Arte foi deturpada
e o Amor não mais vigora.

Muita boa gente, desvairada
foge enquanto geme e chora,
levando a língua seca e calada.

Esse grupo, que o medo adora,
não sabe que caiu numa cilada.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!


TRÍPTICO  Nº 3

EROTISMO
O Vero Amor que no Princípio cantou
(depois de criado em bela Hora),
em todos nós não mora
porque em nós não consegue viver.

Inúmeras vezes, porém, tentou.

O erotismo, quando chora,
tece a teia do desejo a que se agarrou
desprezando o bem-querer.

Mil perdas sofremos por recusarmos ver
que o desvairado que comendo devora,
algemado está ao ter ou não ter.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

ÍMPETO
Muitos preferem aquele tipo de amor
que os atira pra cima da fêmea desejada.
Servem-se do que a ela pode causar pavor
rodopiando na interna tempestade.

Que ganham com o seiva despejada?

Ainda não sabem que a via do desamor
só empresta prazer; dar, não dá nada.
Muito menos felicidade.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

EXCESSO
Vives folgada fornicando em pé
ou vergada aos pés da cama?

Uma vagina, quando aflita e vagabunda,
à Mulher não pode dar vida fecunda,
mesmo que ela, em Deus, tenha muita fé
e escolha pénis com basta fama.

Que a Mulher desça ao Fosso da Memória
e veja como o seu olhar se afunda,
porque a Escuridão, vazia de glória,
destruiu o Ninho da Beleza.

Distinto é quem refez a sua história.

Quem saiu da agitada correnteza
feita engrenagem giratória,
recuperou a o dom da Gentileza
mostrando que a Vida preza. 

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!


TRÍPTICO  Nº 4

CORAGEM
Imensos, mostrando que na Guerra são artistas,

mentem dizendo que matam em nome da paz.
Porque, no seu túnel sem luz só há falsas pistas,
há que ter a coragem de mostrar como se faz.

Não importam as cenas deles, antes vistas!

Qualquer Ser com a alma viva é capaz
de saltar, sem medo, o muro do quintal
e já sem eriçadas cristas
mostrar aquele Amor que nunca faz mal.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado! 

 

DESPREZO
Ao desprezares quem nada entende,

apostas o que, no passado, tanto foi desejado.

A mente, quando se sente em mau estado,
não ouve e não apreende
o que diz o Amor pela Luz preservado.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

RENÚNCIA
Tenta largar o que te sustentou

e facilitou aquilo que ganhaste.

Se o Desamor, a quem muito pagaste,
longamente existiu e muito perdurou,
é hora de inverter o que a alma chorou
e teres aquilo que mais desejaste.

Todavia, eis o que é premente:

Antes de chegar o que te tem faltado
e que contigo nunca se encontrou,
tenta fechar os olhos, calar a mente,
abrir o que há muito se fechou
e aceitar o que foi rejeitado.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado! 


TRÍPTICO  Nº 5

AMOR FARPADO
Em paz estão aqueles em quem o Amor ancora,

desviando as setas com que o ciúme usa investir.

Mas, se essa ave nefasta poisa onde o casal mora,
Gil, querendo livrar-se do que o pode ferir,
suspeita que o Anjo da Traição com Eva namora.

E Eva, querendo sair da peleja vencedora,
quer saber se Gil, sorrindo, lhe vai mentir.

Que farão ambos, agora, olhando a Caixa de Pandora
de onde já espreita o que os não deixará dormir?

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

PROPOSTA
Se gostas de implicar com o teimoso,

que te diz ‘aqui estou e aqui ficarei’;
se detestas a altivez do vaidoso
que te diz: ‘vai falando, qu’eu é que sei!’,
aqui tens o uma boa sugestão:

Deixa a serpente sossegada!

Se promoves a sua ereção,
escolhendo puxar da espada,
(em vez de chamares a Deusa Amada,
que traz a Paz na palma da mão),
na tua vida entrará, assanhada,
a Deusa da Frustração.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

À RÉDEA SOLTA
São cavaleiros de rédea curta e de fala erguida,

de briga fácil e olhar afiado, que vivem a exigir.

Se tivessem espelho, veriam sombras em desalento,
torcidas pelo fedor que do Lodo Humano está a sair.

Destroçam sem pudor, mas logo estarão de partida,
quando o Amor proibir o que lhes tem dado sustento.

Galopando eu à rédea solta, mais não acrescento.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!


TRÍPTICO  Nº 6

AMIZADE
Copias, com um sorriso, como o das crianças?

Pintas o sol de amarelo e o mar de azul-celeste?
Andando logo te perdes, mas nunca te cansas?
Espelhas a luz alheia, mesmo que fria e agreste?

Não queres mudar o estado em que te puseste?

Propor-te o que te traria mudanças,
não te traria os Amores que perdeste.

Por que alimentaste falsas esperanças?

Não estou a criticar o que não alcanças.
Críticas não fazem parte do que aqui leste.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

CAMUFLAGEM
Levar os dias com fingimento,

é mostrar que da Vida nada entende.

É cantarolar um triste fado.
É fingir que o Ser está acordado.
É pôr a alma a dormir ao relento.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!

 

MOFO
A quem se parece com o Filho da Serpente,

digo que essa postura, bem longe da Nobreza,
cheira ao bolor que adora crescer na mente
de quem, sorrindo, sofre de aguda tristeza,
sem saber que há muito está doente.

Mesmo que não me oiças, falo com clareza:

Aspira o velha raiva que o ódio consente
e raspa o mofo que te aparta da Ternura.

Depois, fechando os olhos, vê a face da Doçura.

Servindo o Amor Farpado,
o Outro não é tido nem achado!