Abecedeta – O Enigma do Círculo Fechado

Abecedeta - Vitorino de SousaEste texto é a consequência do meu convívio com Alberto Pimenta.

Conheci este transgressor nato, extremamente lúcido, em consequência de ele ter sido um dos elementos do júri que, em 1979, atribuiu o Prémio “Revelação” de Poesia ao meu formato poético Simbiose.

De alguma maneira deixei-me contaminar pela sua saudável “loucura” e, em resultado, compus este texto. Foi publicado, em 1983, pela editora “&Etc.”, infelizmente extinta, em 2015, por morte do seu mentor Vítor Silva Tavares. Todavia, a livraria e editora “Letra Livre” continua a assegurar a venda dos livros da “&Etc.” e, portanto, também do Abecedeta – O Enigma do Círculo Fechado.

Trata-se das impressões que a narradora registou durante a sua visita ao país de Êta Silhueta-Doce, o Incompreendido, Salve-o Deus. É apresentado sob a forma de um diário de 23 dias, tantos quantas as letras do alfabeto do idioma falado naquele pais, cujas letras terminam todas em “eta”! Portanto, ali, o “abêcêdê” é abecedeta! Porque a coisa é um bocadinho complicada (e profundamente irónica), o melhor é ler um excerto das primeiras páginas, onde a personagem explica a razão do seu desejo profundo de fazer aquela viagem.

Não se admire se o norte-americano Donald Trump, o russo Vladimir Putin, o norte-coreano Kim Jong-un, ou outro desvairado qualquer, surgir na sua mente:

Não deixa de ser interessante que a poucas horas de realizar o nosso sonho mais ambicionado, recorde a figura de meu pai. Evoco o seu modo empenhadíssimo de passar a vida dando ordens, prescrevendo incansavelmente o que os outros deveriam fazer para que tudo estivesse sempre como ele queria.

— Não me enganes, mostrengo! A verdade acima da men­tira! – assim me gritava! E punha uma ênfase especial nestas frases quando, por exemplo, por querer brincar com ele, eu lhe escondia quem arredara uma cadeira do seu devido lugar!

Durante estas inevitáveis exasperações racionais, ele tinha um jeito ternurento de cerrar os dentes e arregalar os olhos injectados. Então, adorava-o mais do que nunca! Infelizmente, o coração desse homem já deixou de resistir aos ímpetos de tanta verticalidade. Só Deus sabe a falta que me faz! Inspirei-me na sua memória para me tornar adulta e hoje sinto um orgulho lógico quando encontro quem me reconhece como a legítima continuadora das suas ideias. Esses, que tão criteriosamente assim me julgam, são os pouquíssimos amigos, os privilegiados que me visitam, as raras pessoas que me me­recem.  Herdei de meu pai uma herança rica até em bens espiri­tuais e muito tenho obstinado por ser digna dela.

(…)

Enfim, adquirir informações seguras e fidedignas sobre o país de Êta Silhueta-Doce, o Incompreendido, Salve-o Deus é tão difícil como coleccionar as polainas ou os chicotes do homem que há muitos anos se empenhou em civilizar aqueles territórios: o Imortal Liberto-Unificador. (…) estou na disposição de tudo fazer para eliminar a indiferença e o desprezo que recai sobre aquela terra! Ah! Tanto que eu desejei visitá-la!

(…)

Devo reconhecer que é dificílimo obter as autorizações necessárias porquanto, anualmente, as passam a uma só pessoa e por um período de oito dias. Mas a minha perseverança, a influencia, o reconhecido interesse pelo país em questão – qualidades que renegam todo o carácter especulativo ou difamador, já se vê! – finalmente deram frutos: quer o passaporte, quer a concessão de permanência por vinte e três dias estão em meu poder!

(…)

Agora, que a viagem já me não pode fugir, empenhar-me-ei a fundo na recolha do maior número possível de elementos a fim de os publicar depois, com isenção. Tenho o gravador e o diário já preparados!

(…)

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